quinta-feira, 5 de novembro de 2009

10.000 visitas revival: "Entrevista com John Dunning"

VIGÍLIA SSS DOS 318 PASTORES PARA DEZ MIL DESOCUPADOS

Entrevistar o John Dunning foi puro bareback. Se vender meia dúzia de livros pra meia dúzia de idiotas já deixa arrogante um escritor nacional, imagina um cara como o Johnny. Provavelmente, o encarregado de filtrar seus e-mails seria um sub do sub do sub do estagiário do trainee da substituta da agente do Dunning, em licença-maternidade. Qual não foi a surpresa quando sua esposa respondeu, e rápido. Dunning se recuperava de um tumor no cérebro, e ela estava responsável pelas coisas. Repassou as perguntas para o John, que ditou as respostas.


ENTREVISTA COM JOHN DUNNING
21 de junho de 2008

Seja.Sinta.Saiba.: Quanto mais a pessoa lê, mais sua vida anda um marasmo. Você concorda?
John Dunning: Não concordo. Nunca considerei a leitura perda de tempo, ou jamais teria feito dela meu ofício. Não acredito que literatura seja mero escapismo. Ela molda, relaxa, proporciona conhecimento de outras épocas, lugares etc.

SSS: Você deseja concluir mais um ou dois livros protagonizados por Cliff Janeway. Com seu DDA e enfermidades que o acometeram nos últimos anos, o que o faz continuar escrevendo?
JD: Um escritor jamais deixará de sê-lo. No momento, estou parado por conta da doença, mas passo o tempo todo pensando no próximo livro. Tudo ao meu redor é material para um romance.

SSS: Aqui, muita gente acredita que literatura “salva”, como uma religião. Você acredita nisso? E romances policiais, eles também podem “salvar”?
JD: Nunca ouvi falar disso, que livros podem “salvar”. Concordo que eles são mágicos e capazes de transformar a pessoa em alguém melhor. Se eles conseguirem te libertar dos problemas cotidianos, do caos no mundo etc., acabam por se tornar maravilhosos para o espírito.

SSS: Alguns afirmam que os videogames são criação do demônio. O bullying é creditado, dentre outras coisas, a jogos eletrônicos. O que aconteceria se crianças e jovens parassem com videogames e começassem a ler romances policiais por horas a fio? A sociedade incriminaria os livros e condenaria seus autores como corruptores de menores?
JD: Gente religiosa sempre arruma alguma sarna pra se coçar. O que realmente me preocupa é crianças e jovens não lerem absolutamente nada. A mim, tanto me importa o que leem, meus livros, os da Patrícia Cornwell ou do Dennis Lehane, pois, deles, sempre extrairão algo. Toda vez que abrirem um livro acrescentarão conhecimento àquele que possuem.

SSS: A morte é necessária na sua profissão. Como você, um escritor policial, enxerga a morte?
JD: É triste demais quando alguém morre antes do tempo. Quando você escreve e a morte chega para um de seus personagens, simplesmente aceita e segue em frente. Agora que encarei a morte de perto, eu a temo muito menos do que costumava temer. Gostaria de ter tido mais tempo para escrever, mas estou contente pelos meus doze livros publicados.

SSS: E, finalmente: Obama, McCain ou nenhum dos dois?
JD: Espero que seja o Obama, mas não me preocupo muito com isso. Qualquer um será uma grande melhora em relação ao Bush.

(Entrevista cedida em 17 de junho, por e-mail.)

Rainha do inverno, parte V

OS NOMES DOS CAPÍTULOS

Boris Akunin, o pai da criança, se acha um sujeito engraçado. Sei lá, talvez tenha sido criado com muito programa do Bozo e passasse as tardes apostando no cavalinho malhado. À noite, debulhava o garoto Juca pensando na vovó Mafalda. Só sei que ele optou por uns nomes super gozados pros capítulos de Rainha do inverno, num estilo manquitola herdado do Decamerão e Dom Quixote.

Capítulo segundo
No qual nada ocorre, a não ser conversas

Capítulo décimo segundo
No qual o herói fica sabendo que tem uma auréola ao redor da cabeça

Capítulo décimo quinto
No qual se prova de modo convincente a importância da respiração correta

Capítulo décimo sexto
No qual se prenuncia um grande futuro para a eletricidade

Nada contra. Naaada contra. Rainha do inverno é um ratatouille que mistura romance policial e maneirismos literários russos, berinjela e tomate, crimes e debates filosóficos sobre pedagogia infantil, carne e legumes cozidos, romance histórico e diálogos cômicos, azeite e sal.
Parece que o Boris Akunin queria fazer todo o kama sutra, mas só tinha meia hora.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
4.5 – 1.5 = 3


Ah, sim. A diagramação do livro é uma merda.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
3 – 1 = 2


E a cola da lombada parece Pritt.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
2 – 1 = 1

Então eu compreendi que meu trabalho era inútil. Não se esgota o mar com uma colher.

Rainha do inverno (Azazel)
Boris Akunin
Objetiva, 2003
288 páginas

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O refrão mais idiota de 2009


cover
eu sou um cover
gosto
de ser assim
cover
eu sou um cover
cover
cover de mim

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Rainha do inverno, parte IV

AS NOTAS DE RODAPÉ

Rainha do inverno não é um clássico. Não foi escrito em vulgata latina em mosteiros medievais por padres copistas. Não reflete o zeitgeist de uma geração. Longe disso.
Rainha do inverno é um policial bem mais ou menos. O enredo é fraco, os momentos engraçados não têm graça e o autor é um sujeito com boas intenções e nada mais.
Então, qual a necessidade de se colocar cento e vinte e sete notas de rodapé nessa porra de livro?
Paulo Bezerra, livre-docente em literatura russa pela USP, deve achar a gente, pobres mortais, incapaz de limpar a própria bunda. Algumas notas atestam o quanto tradutor e editora têm seus leitores em alta conta.

Don´t!* — levantou a mão o inglês e, no mesmo instante, ouviu-se o estampido.
* Não precisa! (em inglês).

É um homem muito conhecido na América, milionário, desses que aqui são chamados de self-made man.*
* O homem que fez a si mesmo (em inglês).

“F” quer dizer Force,* mas ainda há a categoria “S”, Science,** a categoria “A”, Art,*** a categoria “B”, Business.
* Força (em inglês).
** Ciência (idem).
*** Arte (idem).

Chamei o cocheiro para tomar chá. Chá! Tea! Drink!* O diabo é resistente, mas caiu. Bebe, bebe e nada. Drink, drink and nothing.* Mas depois acabou desmaiando. A carruagem, eu botei detrás da casa. Behind nossa house.***
* Tomar chá (em inglês macarrônico).
** Bebe, bebe e nada (em inglês macarrônico).
*** Atrás da nossa casa (em inglês macarrônico).

Why don´t you give half an hour of ass?*
* Por que vocês não dão meia hora de bunda? (em inglês coloquial).


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
6.5 – 2 = 4.5


Rainha do inverno (Azazel)
Boris Akunin
Objetiva, 2003
288 páginas

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Feliz Dia dos Mortos

domingo, 1 de novembro de 2009

Rainha do inverno, parte III


O TRADUTOR

Na folha de rosto, aparece:

Tradução direta do russo por Paulo Bezerra
Ok. Até aí, tudo muito bom, tudo muito bem. No passado, havia muita tradução indireta, Dostoiévski do francês, Mishima do inglês, essa coisa toda. Hoje em dia, isso é muito difícil de acontecer, mas a editora Objetiva optou por colocar a informação.
Quando se trata de enaltecer o próprio rabicó, eles são detalhistas.
Só que tem mais.

Tradução direta do russo por Paulo Bezerra
Livre-docente em literatura russa pela USP


Uau.
Uaaauuu!
Não é um zé qualquer: é um livre-docente em literatura russa pela USP! A Universidade de São Paulo! Aquela mesma. A que leciona seis meses, tira férias três meses e fica três meses em greve.
Se arrancassem o ego de dentro desses senhores, daria pra alimentar um pequeno país africano por dois anos.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
7.5 – 1 = 6.5

Rainha do inverno (Azazel)
Boris Akunin
Objetiva, 2003
288 páginas

sábado, 31 de outubro de 2009

Rainha do inverno, parte II

O TÍTULO

A pessoa abre a Rainha do inverno (no bom sentido) e lê, lê, lê. E lê mais. E mais um pouco. As letras formam palavras que desembocam em frases que engordam até virar parágrafos. Os parágrafos sofrem mitose e se reproduzem em páginas. As páginas se acumulam, 10, 20, 50, e nada da porra da rainha do inverno.


Então, numa hora qualquer, o detetive Fandórin — um escrevente da polícia que a editora Objetiva decidiu, por marketing, chamar de detetive — descobre que sua suspeita se hospedara num hotel chamado Rainha do Inverno, sem qualquer relevância para o enredo. Em cinco páginas, não se fala mais do hotel. Nem da suspeita, aliás.
Por que cacete o autor chamou o livro de Rainha do inverno?
Ele não chamou.
O título original é Azazel. Aquele mesmo, o satanás. O nome da grande conspiração que Fandórin descobre e desbaratina no final da obra.
A editora Objetiva, num rompante de iluminada criatividade, num brainstorming de inspiração divina, achou melhor mudar o título para Rainha do inverno. “Ah, isso é um detalhe menor”, pensa o tradutor. “Foda-se, manda pra gráfica”, manda o editor. “Bando de vagabundo preguiçoso”, lastima o leitor. E todos nos abraçamos e mergulhamos no oceano da estupidez humana.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
8.5 – 1 = 7.5


Rainha do inverno (Azazel)
Boris Akunin
Objetiva, 2003
288 páginas

Rainha do inverno, parte I

Certo. Vamos fazer diferente desta vez. Rainha do inverno terá 10 como nota de partida. À medida que o sambaqui de cagadas se acumular, os pontos serão subtraídos. Uma abordagem, tipo assim, super empírica.


A CAPA

É daquelas que enganam o leitor distraído. Chamada de “capa Monet”, parece maravilhosa de longe, mas, de perto, revela-se uma merda. A pintura feia e desbotada ao fundo mostra duas mulheres com cabelo de Marge Simpson e um veadinho de vermelho. Pelo jeito, trata-se da representação dos devaneios do sujeito em primeiro plano, um Lênin desmunhecado com boca de sovaco. Este, supostamente, é o protagonista de Rainha do inverno, Erast Fandórin.
O problema é que, nas primeiras páginas do livro, descreve-se o Fandórin:

Aos 19 anos, era um jovem muito afável, de cabelos negros (dos quais ele se orgulhava secretamente) e de olhos azuis, bastante alto, pele clara e um rubor insidioso e indisfarçável nas faces.


O Fandórin estava usando lentes escuras na hora da foto? E em que mundo skinhead ele vivia, para se orgulhar desse aeroporto de mosquito na cabeça? “Ah, isso são detalhes menores”, pensa o capista. “Foda-se, manda pra gráfica”, manda o editor. “Bando de incompetentes preguiçosos”, amaldiçoa o leitor. E todos damos as mãos e mergulhamos no rio da mediocridade.


MÉDIA DE RAINHA DO INVERNO
10 – 1.5 = 8.5



Rainha do inverno (Azazel)
Boris Akunin
Objetiva, 2003
288 páginas

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tobira

A cada três meses, recebo um encarte da Fundação Japão. Uma espécie de Guia da Folha amarelo. O nome dele é Tobira.
“Tobira” significa “porta”. No logotipo, a letra “B” se abre como uma porta. A descrição do guia diz: “Porta de acesso à cultura, língua e estudos japoneses”. O ideograma para “porta” é esse aqui:

Agora, Tobira fechará as portas. Esse foi o último número.
Bom, alguém já ouviu falar dessa porra?
Não fará muita falta.

Mas tem um negócio que deixará saudade. Existe uma seção do Tobira intitulada “Perfil”. É uma mania japonesa essa coisa de jikoshôkai (自己紹介), a “auto-apresentação”. Todo funcionário novo na Fundação Japão — de cargo alto, óbvio — escreve um artigo onde fala de si, suas qualidades, visão de mundo e a forma como deseja contribuir com a “cultura, língua e estudos japoneses”.
A bola da vez é um sujeito com cara de zumbi chamado Joji Ikezu.
E Ikezu-san tem algo a dizer.

A imagem que eu tenho do Brasil é de um país de emoções, representado pelo futebol e samba, e que exala um aroma adulto com bossa nova e café.
No Japão, dizem que quando uma pessoa bebe, acaba revelando o que realmente pensa e a sua verdadeira maneira de ser. Porém, no Brasil, dizem que o que se revela é a sua face falsa. Até então, eu que, mesmo bebendo, fazia força para me manter sério, depois desta descoberta, divirto-me bebendo e repetindo para mim mesmo que o quê (sic) se revela após beber é o falso eu. Na verdade, beber pensando desta forma é melhor para o corpo e para a mente. Que cultura maravilhosa!
Sou uma pessoa um pouco desajeitada, mas estou disposto a ajudá-los. Contem comigo!

Hahaha.
Mandou bem, Ikezu-san!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O império do sol

Faz uma cara que assisti O império do sol. E quando digo uma cara me refiro a, sei lá, uns quinze anos. Começava a nascer pentelho no meu hortifrúti genital — que, até então, tinha uma banana-nanica e dois tomates-cereja.
Virou o século, virou o milênio, VHS se tornou DVD, minha banana-nanica se transformou em banana-terra (tá bom) e decidi alugar O império do sol para relembrar um passado nem tão feliz assim. Recordações: o primeiro sinal da chegada da morte.
Algumas coisas mudaram. Christian Bale ainda não humilhava operadores de câmera no set de filmagem, e John Malkovitch era mais macho. Só um pouco.

Outras coisas permaneceram as mesmas. A estranha tara de Spielberg por garotinhos.

— Eu gostaria de pirulitos no meu trailer. Muitos pirulitos. É possível, sr. Spielberg?
— Claro, claro. Mas me chame apenas de Steve. Tio Steve.

Bem, O império do sol não resistiu ao tempo. Ou então eu me tornei muito cínico pra acreditar no festival de chavões que é o filme. Tem uma hora, por exemplo, em que três aviadores japas vão embarcar numa missão kamikaze. Básico. Aí, antes de subirem nas aeronaves, eles tomam um goró e começam a entoar um hino para, sei lá eu, a deusa dos infernos, uma morte honrosa, a Aracy de Almeida, enfim. É quando o pequeno Christian Bale faz continência do outro lado da cerca e começa a cantar a canção que aprendeu na igreja da escola.
Os aviadores param para escutar, extasiados.
John Malkovitch, o homem sem caráter, soluça.
Os olhos de Kaneda Sugawara, o general impiedoso, marejam.
O homem sério que contava dinheiro parou. A moça triste que vivia calada sorriu. E a rosa triste que vivia fechada se abriu.

E eu enfiei a mão direita dentro da calça, cocei o saco e depois cheirei.
“Hum, gorgonzola!”

O império do sol (Empire of the sun)
1987

Novo Avon Renew Clinical Derma-Full X3 Sérum, que traz ácido hialurônico na sua formulação.


...


Sou só eu que não entendeu porra nenhuma?


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Heroes: terceira temporada

Como Heroes é chato, meu deus. Cada episódio se arrasta como um rio de mel cristalizado. Todo santo início e todo maldito final de capítulo, aquela voz com sotaque hindu falando alguma bobagem existencialista de quinta.

“Para cada ser amaldiçoado com o autoconhecimento, sobra uma pergunta sem resposta: ‘Quem sou eu?’. Nós nos empenhamos para achar ligações significativas entre nós. Somos o amigo que se preocupa, o pai amoroso, a mãe apaixonada, a criança protegida. Lutamos e amamos, na esperança de que, unidos, possamos entender nossa importância no universo. Mas, no fim, ninguém pode partilhar o nosso fardo. Cada um de nós, sozinho, deverá responder à pergunta: ‘Quem sou seu? O que significa estar vivo? E, no vasto infinito do tempo, qual é a minha relevância?’.”

— Nossa, que lindo...

Esse é o problema com temporadas de macro-enredo. Em prol de um “suspense”, a ação não se desenvolve. E esse grande plano algema todos os personagens, que não podem crescer individualmente. Ou seja: os episódios não são autossuficientes, e isso é morte certa. Lost que o diga. Ou The 4400.
24 horas entendeu isso, e criou dúzias de atentados e traições ao longo do dia. Colocar o Jack Bauer caçando um super-vilão durante 23 episódios para prender o figura só no último é dar tiro no pé.

RESUMO DA TERCEIRA TEMPORADA DE HEROES

Policiais perseguem herói. Cercam o sujeito. Ele voa para longe.
Policiais perseguem vilão. Cercam o sujeito. Ele joga todo mundo na parede.
Policiais perseguem japonês. Cercam o sujeito. Ele congela o tempo e foge.

A isso se limita Heroes: participação constante do deus ex machina.
A premissa da primeira temporada era: “salve a cheerleader e salve o mundo”. Deviam ter deixado ela morrer. O mundo explodiria e seríamos poupados da sequência.
Heroes, com um elenco todo loiro, a nova formação do Banana Split.




Heroes: third season
2008

domingo, 25 de outubro de 2009

Separados no nascimento 41: Dana White & Don King